Ontem fiz um blogue com o nome “ A lagartixa”. Podia ser uma
coisa espúria mas não é.
Eu conheci uma
lagartixa que ficou nas minhas memórias.
Tinha para ali, em outros tempos, uma casa para os lados de
Felgueiras, de onde provenho em família, que era uma construção em pedra,
soalhos de pinho de riga, uma vivência aburguesada de tempos com história. Que
eu, nascida com espírito de aventura, mais ou menos, quis erradicar do
conservadorismo dos limiares do século e defrontar o novo século com o peito
aberto e inteligência capaz de não ser uma mulher de dar filhos ao mundo com alguma dependência do pároco da aldeia,
que vinha do cimo do Marão, do Presidente da Junta, que andava nas minhas
terras a roçar o mato para o burro com que distribuía o azeite, nem sempre
azeite.
Mas, para que conste da minha mocidade de camélias e jardins
de jasmim e rosa chá a enfeitiçar-me as tardes, havia uma lagartixa.
Uma lagartixa, livre e sapiente, que largava a cauda que lhe
cresceria depois, cada vez que era incomodada.
Uma lagartixa livre, sempre com a sua cabeça levantada, que
vinha comer na sala de jantar, ao sol, sem medos, sem território, numa aventura
diária.
Abria-se a varanda e lá estava ela a percorrer a sala de
jantar, onde almoçávamos, que o jantar era na sala mais recatada com lareira.
Não tinha medo
nenhum. Sabia que era nossa e não a chateávamos com coisas espúrias. Passeava a
sala de jantar ao sol a colher o que lhe interessava, numa interligação
ecológica com a sua realidade. Nunca perdeu a cauda. Adorava a lagartixa e a
sua liberdade. Porque eu exigia, nunca lhe foi coarctado a acesso á sala de
jantar.
Memórias de uma vida simples, ecológica. Por isso o nome do
meu blogue.
Helena Guimarães
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