sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A LAGARTIXA

Ontem fiz um blogue com o nome “ A lagartixa”. Podia ser uma coisa espúria mas não é.

 Eu conheci uma lagartixa que ficou nas minhas memórias.

Tinha para ali, em outros tempos, uma casa para os lados de Felgueiras, de onde provenho em família, que era uma construção em pedra, soalhos de pinho de riga, uma vivência aburguesada de tempos com história. Que eu, nascida com espírito de aventura, mais ou menos, quis erradicar do conservadorismo dos limiares do século e defrontar o novo século com o peito aberto e inteligência capaz de não ser uma mulher de dar filhos ao mundo  com alguma dependência do pároco da aldeia, que vinha do cimo do Marão, do Presidente da Junta, que andava nas minhas terras a roçar o mato para o burro com que distribuía o azeite, nem sempre azeite.

Mas, para que conste da minha mocidade de camélias e jardins de jasmim e rosa chá a enfeitiçar-me as tardes, havia uma lagartixa.

Uma lagartixa, livre e sapiente, que largava a cauda que lhe cresceria depois, cada vez que era incomodada.

Uma lagartixa livre, sempre com a sua cabeça levantada, que vinha comer na sala de jantar, ao sol, sem medos, sem território, numa aventura diária.

Abria-se a varanda e lá estava ela a percorrer a sala de jantar, onde almoçávamos, que o jantar era na sala mais recatada com lareira.

 Não tinha medo nenhum. Sabia que era nossa e não a chateávamos com coisas espúrias. Passeava a sala de jantar ao sol a colher o que lhe interessava, numa interligação ecológica com a sua realidade. Nunca perdeu a cauda. Adorava a lagartixa e a sua liberdade. Porque eu exigia, nunca lhe foi coarctado a acesso á sala de jantar.

Memórias de uma vida simples, ecológica. Por isso o nome do meu blogue.

 

Helena Guimarães

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